quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Parabenos e o CIR: a avaliação "final" mais recente

Saiu o artigo mais recente do CIR (comitê de avaliação da indústria americana de cosméticos) sobre a avaliação de segurança de parabenos.
O artigo está disponível no International Journal of Toxicology em suplemento (Int J Toxicol. 2008;27 Suppl 4:1-82) com o título: "Final amended report on the safety assessment of Methylparaben, Ethylparaben, Propylparaben, Isopropylparaben, Butylparaben, Isobutylparaben, and Benzylparaben as used in cosmetic products."No texto eles admitem que os parabenos penetram o extrato córneo na inversa proporsão do tamanho de sua cadeias, que não há toxicidade aguda e a toxicidade sub-aguda ou crônica é QUASE nenhuma.
Os estudos de genotoxicidade apresentaram PRATICAMENTE nenhuma toxicidade, EMBORA o metilparabeno e o etilparabeno tenham aumentado SIGNIFICATIVAMENTE as aberrações cromossômicas nos estudos conduzidos em células de ovário de hamsters. Eles também admitem que a presença de etil, propil e butilparabeno na dieta produziram proliferação celular no estômago anterior de ratos (efeito ligado ao tamanho da cadeia molecular), mas o isobutil e o butilparabeno não são carcinogênicos quando dados por via oral em ratos.
Há também a admissão, após dizer que não são cancerígenos administrados por via subcutânea, de que em um estudo in vitro houve evidência de toxicidade em baixíssimas doses, tornando o esperma inviável. Logo, no entanto rebatem com a afirmação que em um outro estudo in vivo, 0,1% de metilparabeno e 1,0% de etilparabeno por via oral não causaram toxicidade no esperma de ratos, embora tenham que admitir que o propilparabeno afete a contagem do esperma em todas as concentrações variando de 0,01% até 1,0%´, além do butilparabeno em doses de 1% levar a perda de peso do epidídimo e da vesícula seminal, com perda da motilidade e do número de espermatozóides viáveis em nascituros de ratas expostas a 100mg/dia. Também admitem que em ratas tratadas com injeções subcutâneas de 100 a 200mg/dia houve toxicidade reprodutiva nos filhotes, mas sem deformidades na genitália aparentes.
Segundo os autores o Butilparabeno se liga aos receptores estrogênicos mas com uma obvia afinidade menor que o estradiol. Existe também relativa afinidade dos receptores alfa e beta que aumenta em função do tamanho da cadeia alquil do metil (mais fraca) até o isobutil (mais forte). Nos receptores androgênicos, o propilparabeno demonstrou uma atividade competitiva fraca enquanto o metilparabeno não teve atividade. O ácido parahidroxibenzoico (PHBA), do qual este grupo de substâncias deriva, quando administrado por via subcutânea na dose de 5mg/kg/dia, produziu resposta estrogênica em um estudo uterotrófico com camundongos, mas não em ratos. Quanto ao metilparabeno, os achados foram controversos, porém nos casos positivos sua potência seria 1000 vezes menor que o estradiol e o mesmo valeria para o etil, propil e butilparabeno. Já, para os autores, o isobutilparabeno é uterotrófico por estímulo estrogênico, apesar sua potência ser só 240.000 vezes menor que o estradiol. O benzilparabeno também produziu o mesmo resultado apesar de uma potência ainda menor, de cerca 330.000 vezes menor que o estradiol.
Os autores também admitem a atividade estrogênica dos parabenos e do PHBA em células humanas tumorais de mama in vitro (embora reassegurem que são 4 vezes mais fracas que o estradiol).
Segundo os autores, os parabenos são não irritantes e não sensibilizantes, apesar dos inúmeros casos reportados na literatura e das preocupações dos alergologistas, isto só ocorreria na pele não íntegra. Eles dizem que apesar dos parabenos PENETRAREM o stratum corneum, o próprio metabolismo da pele seria responsável por reduzir a 1/4 esta dose e assim reduzir a quantidade de parabenos absorvidos na forma original.

A conclusão dos "experts" do CIR é que os parabenos são seguros para uso em cosméticos.

Ficou confuso?
Pois é. Muitos estudos citados neste artigo são contraditórios e controversos.
O fato de dizer que uma substância possui ação estrogênica x vezes menor que o estradiol não significa que ela não seja eficaz para provocar uma ação, ou uma interferência, fato observado por exemplo na comparação do estradiol (hormônio natural) com um xenohormônio como o benzilparabeno, que apesar de ser 300.000 vezes mais fraco produz estimulação uterotrófica significativa.
Discordo do fato que parabenos sejam seguros do ponto de vista de sensibilização. A literatura está repleta de artigos e "reports" e os preservantes são uma das categorias mais importantes entre os agentes sensibilizantes em cosmética, juntamente com os perfumes e os corantes e em aumento na população geral.
Além do mais a tal "pele íntegra" é uma falácia. A pele sofre milhões de agressões e microtraumas contínuos onde uma ruptura do efeito barreira não é nada absurdo ou anormal.
Outro detalhe que foi tratado de forma superficial foi a dose diária de parabenos ao qual o indivíduo está exposto, uma vez que o uso de cosméticos não é a única fonte destas susbtâncias. Assim a dose utilizada para comparação com a NOAEL (nível no qual não se observam efeitos adversos - no observed adverse effect level) não é a dose real de parabenos ao qual o sujeito médio está de fato exposto e as margens de segurança não são conservadoras, muito ao contrário.

Menos mal que em outros pontos do globo os grupos de vigilância sejam mais restritivos e bem menos condescendentes, e discordem, ao menos parcialmente, deste ponto de vista, uma vez que não devem defender os interesses das indústrias, mas sim da sociedade.

2 comentários:

Levy disse...

Discordo completamente do comentário anterior que coloca o parabeno como um problema para a saúde pública, segundo estudos especificos comprovarão a eficácia e a eficiência do parabeno na área dos cosméticos, o qual não produz riscos a saúde da população!

Sandra Goraieb disse...

Sr. Levi, o senhor está em concordância com o CIR. Nada a dizer, a legislação atual concorda com o senhor, mas não leva em conta as novas abordagens em questões toxicológicas quando diante de um agente com propriedades endócrinas comprovadas. Os painéis atuais de toxicidade em vigência não contemplam esta abordagem, infelizmente, mas certamente o senhor deve estar ciente destes aspectos. Como o senhor poderá verificar, trouxemos muitos artigos de diferentes fontes e instituições que pensam de forma diversa.