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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Efeitos de longo prazo sobre o comportamento e a fisiologia reprodutiva por interferentes hormonais

Este é o título do artigo de duas pesquisadoras do North Carolina State University em Raleigh, as Dr.as Heather B. Patisaul e Heather B. Adewale, publicado no "Frontiers in Behavioral Neurosciences" de Junho.
As autoras abordam a interferência endócrina e seus efeitos sobre o feto, cujas manifestações podem levar décadas para serem evidenciadas além de abordar a influência destas experiências precoces no comportamento e na fisiologia reprodutiva através de mecanismos epigenéticos (tais como acetilação de histonas e metilação do DNA, por exemplo).

Para os fãs da soja na alimentação infantil, vale dar uma olhadinha (ver genisteína).

Para saber mais, o artigo (em inglês) está disponível gratuitamente em: http://www.pubmedcentral.nih.gov/picrender.fcgi?artid=2706654&blobtype=pdf.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Obesidade programada

Até hoje houveram poucos estudos epidemiológicos associando a exposição intrauterina a agentes químicos e o índice de massa corpórea (BMI).
Na Bélgica, no Departamento de Pediatria da Universidade da Antuérpia, foi realizado recentemente um estudo prospectivo* (pelo grupo de pesquisadores liderados pelo Dr. Stijn Verhust) que revelou a associação entre a exposição prenatal a agentes poluidores ambientais e um elevado BMI durante os 3 primeiros anos de vida.
Desde a década de 90 do séc.XX, pesquisadores, biólogos e médicos vêm colecionando dados que a exposição aos interferentes endócrinos como os bifenil policlorados (PCBs), bisfenol A (BPA), ftalatos e dioxinas durante fases críticas do desenvolvimento fetal possam aumentar o risco, entre outros, de obesidade na vida adulta. Somado a isto, a exposição ao fumo de tabaco na fase prenatal tem sido ligada a um ulterior aumento no desenvolvimento de obesidade, pois todas estas exposições estão ligadas a alterações nos mecanismos homeostáticos do controle de peso.
Usando um modelo de estudo longitudinal, os pesquisadores obtiveram uma amostra aleatória de 138 mães e bebês em um período de 2 anos (entre 2002 e 2004). As amostras foram selecionadas dentro de áreas geográficas com diferentes características ambientais e de contaminantes (rural, urbana, industrial).
Dados epidemiológicos foram coletados dos pais. Ao nascer o peso e a altura dos bebês foram medidos e analisados e sangue do cordão foi coletado para medidas de hexaclorobenzeno, compostos relacionados à dioxinas, PCBs e DDE (metabólito de pesticidas). Todas as crianças foram seguidas por 3 anos.
Primeiramente, os níveis mais elevados de PCBs foram associados a um maior desvio para cima na curva de BMI nas crianças entre 1 e 3 anos. Fumo materno também. A combinação de ambos apresentou-se estatísticamente significante.
Os resíduos de pesticida (DDE) foram associados a um discreto aumento no BMI nas crianças de 3 anos de mães não fumantes, mas este aumento foi bem maior nos filhos de mães fumantes.
Os pesquisadores relatam as limitações do estudo, como o aumento de peso materno durante a gravidez, que é um importante fator de risco para obesidade e não foi abordado no estudo. Além disso eles assinalam que as crianças foram seguidas somente por 3 anos. Embora ainda caiba um seguimento por períodos mais longos destes dados para que se verifique se as observações se mantém ao longo dos anos, sabe-se que um elevado BMI na primeira infância é associado a um risco aumentado para obesidade na idade adulta.
Este é o primeiro estudo epidemiológico realizado para demonstrar o impacto da exposição prenatal a agentes poluentes sobre o índice de massa corporal durante o período pré-escolar.

* Verhust et al
Environmental Heath Perspectives,vol.117, n.3, março 2009, pag 122-6
para ler o artigo, clique no título deste post ou acesse:
http://www.ehponline.org/members/2008/0800003/0800003.pdf

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Carnaval, Álcool e Gestação: combinação perigosa

A ingestão de álcool durante a gravidez afeta o desenvolvimento fetal e provoca a chamada Síndrome Alcoólica Fetal (FAS), cuja mais severa consequência é a lesão ao cérebro que se manifesta como deficits cognitivos, de aprendizado e de comportamento.
O Hipocampo é uma das áreas mais sensíveis a toxicidade provocada pelo etanol(álcool). Estudos recentes mostraram que o uso de bebidas alcoólicas pela mãe durante a gestação, leva a alterações no desenvolvimento do giro dentado de forma específica.

O Carnaval é um período de excessos. Exceda na alegria, nas danças. Se você está esperando um bebê, ou o está amamentando, evite bebidas alcoólicas.
Vai ser bom para você, vai ser bom para ele.
E se você for dirigir, não beba.


Miki T, Yokoyama T, Sumitani K, Kusaka T, Warita K, Matsumoto Y, Wang ZY, Wilce PA, Bedi KS, Itoh S, Takeuchi Y.
Ethanol neurotoxicity and dentate gyrus development.
Congenit Anom (Kyoto). 2008 Sep;48(3):110-7.
Department of Anatomy and Neurobiology, Faculty of Medicine, Kagawa University, Kagawa, Japan. mikit@med.kagawa-u.ac.jp

a imagem é de:www.educaçãopublica.rj.gov.br

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Suplementação de Cálcio na gestação: diminuindo a exposição ao chumbo.

O Chumbo, como o Cálcio é depositado nos ossos e não costuma circular pelo corpo exceto quando ocorre uma demanda maior pelo Cálcio, como no caso da gestação e lactação, que promove a liberação de ambos os íons. O problema é que chumbo é tóxico.
Um estudo conduzido por um grupo da Universidade de Harvard em cooperação com a Universidade de Michigan e o Ministério da Saúde do México, observou que o uso de suplementos diários e realtivamente baratos de Cálcio (1200mg/d) diminuem os níveis de chumbo livres no plasma de 15 a 20% e no leite materno de 5 a 10% na lactação e também (e este é o objeto do estudo) durante a gravidez, e que esta ação relativamente simples poderia ajudar a diminuir os efeitos indesejados da exposição prenatal ao chumbo, tais como: baixo peso, baixo coeficiente intelectivo, e deficits na função motora e visual.
O artigo completo pode ser lido no link abaixo e é gratuito.

Effect of Calcium Supplementation on Blood Lead Levels in Pregnancy: A Randomized Placebo-Controlled Trial
Adrienne S. Ettinger, Héctor Lamadrid-Figueroa, Martha M. Téllez-Rojo, Adriana Mercado-García, Karen E. Peterson, Joel Schwartz, Howard Hu and Mauricio Hernández-Avila
http://www.ehponline.org/members/2008/11868/11868.pdf

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Você é o que você come.

Estive vendo umas coisinhas sobre a relação entre a dieta materna e as doenças que o feto pode desenvolver na sua vida adulta, incluindo doença coronária e resistência insulínica. Interessante a hipótese que se possa programar a qualidade de vida de uma pessoa a partir do útero. Em animais observou-se que a subnutrição intra-uterina leva a danos renais, cerebrais e cardíacos, aparentemente devidos ao remodelamento do desenvolvimento associado com a diferenciação e proliferação celular. Mesmo variações menores no status nutricional materno são capazes de causar desvios importantes no ambiente fetal que poderiam levar a alteração na expressão de genes chave, responsáveis pela remodelação tissular e o futuro risco associado às várias doenças.
Os fatores nutricionais poderiam também levar a estes processos por alterar a fisiologia placentária, incluindo as trocas materno-fetais além da regulação epigenética da expressão genética.
Na verdade a gente acabaria sendo reflexo daquilo que a gente come, ou o que nossas mães comeram quando éramos fetos. E nossos "achaques" e "condores" da idade adulta, consequência tardia de um estilo de vida precoce.
Aí, pensei nas imensas quantidades de glutamato monossódico que as pessoas ingerem diariamente, inclusive as gestantes sem uma correta orientação, e nas possibilidades patológicas que estas substâncias poderiam trazer aos fetos a longo prazo.
O Glutamato de sódio causa inflamação nas células hepáticas, esteatose não alcoólica, hepatite, lesões pré-cancerosas, obesidade central e diabetes do tipo 2 em animais de experimentação, não diferentes das observadas em seres humanos.
Coisa para se pensar e levar a sério (e não à boca).


Para saber mais:

Langley-Evans SC.
Nutritional programming of disease: unravelling the mechanism.
J Anat. 2008 Oct 8.

Nakanishi Y, Tsuneyama K, Fujimoto M, Salunga TL, Nomoto K, An JL, Takano Y, Iizuka S, Nagata M, Suzuki W, Shimada T, Aburada M, Nakano M, Selmi C, Gershwin ME.
Monosodium glutamate (MSG): a villain and promoter of liver inflammation and dysplasia.
J Autoimmun. 2008 Feb-Mar;30(1-2):42-50

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Ftalatos e gestação, um estudo em Israel

Na Environment International de Setembro de 2008 foi publicado um artigo com os resultados de um estudo piloto realizado em Jerusalem pelo grupo de pesquisadores da Escola de Farmácia da Faculdade de Medicina da Hebrew University of Jerusalem, capitaneados pelo Dr. Berman, avaliando a exposição a estes interferentes hormonais durante a gestação.
Os autores mediram 11 metabólitos de ftalatos em 19 gestantes associando dados coletados através de questionário sobre fatores demográficos e hábitos de consumo destas gestantes.
Nove metabólitos estavam presentes em cerca 95% das amostras (mono(2-ethyl-5-carboxypentyl) phthalate, mono(2-ethyl-5-hydroxyhexyl) phthalate, mono(2-ethyl-5-oxohexyl) phthalate, mono(3-carboxypropyl) phthalate, mono(n-butyl) phthalate, monobenzyl phthalate (MBzP), monoethyl phthalate (MEP), mono(2-ethylhexyl) phthalate and monoisobutyl phthalate) e corresponderam à exposição observada nos Estados Unidos para a população feminina adulta.
O nível de Monobenzilftalato foi maior em mulheres que viviam em construções mais antigas (40 anos ou mais). Em mulheres que consumiam quatro ou mais cosméticos (perfume, desodorante, batom, esmalte, creme de mãos ou facial) nas 48 horas antecedentes a coleta da amostra, as concentrações de Monoetilftalato foram maiores de 4 vezes que aquelas amostras onde as mulheres usaram somente três ou dois produtos (p=0,07)*.
Dos achados os autores concluem que as mulheres ebreas em Jerusalem são expostas a uma vasta gama de ftalatos e que as fontes de contaminação podem estar relacionadas aos materiais de construção utilizados em prédios antigos (para o benzilbutilftalato) e que produtos de higiene e cosméticos podem ser a fonte de exposição ao dietilftalato.

Para saber mais:
Environ Int. 2008 Sep 26 (on line).
Phthalate exposure among pregnant women in Jerusalem, Israel: Results of a pilot study.
Berman T, Hochner-Celnikier D, Calafat AM, Needham LL, Amitai Y, Wormser U, Richter E.
Department of Pharmacology, School of Pharmacy, Faculty of Medicine, Hebrew University of Jerusalem 91120, Israel.

* NA: o valor de p indica que o evento ocorreu em 93% da amostra, porém 7% estavam fora destes resultados. Normalmente se aceita como estatísticamente significativo valores de p menores ou iguais a 5%, ou 0,05.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Generation R, um estudo em Rotterdam

Em Rotterdam, na Holanda, existe em curso um estudo denominado "Generation R". Ele avalia cerca 10.000 crianças com foco principal nas seguintes áreas:
1. crescimento e desenvolvimento
2. desenvolvimento cognitivo e comportamental
3. doenças na infância
4. Saúde e sistema sanitário
O objetivo é otimizar o atendimento às gestantes e às crianças, com um olhar mais atento às reais necessidades destes grupos.

Dentro deste estudo, um grupo bastante significativo de instituições americanas(Epidemiology Branch, National Institute of Environmental Health Sciences-NIEHS, National Institutes of Health-NIH, Department of Health and Human Services-DHHS) em colaboração, acaba de publicar artigo interessante sobre a exposição total a interferentes endócrinos ambientais (bisfenol, ftalatos e organoclorados) medidos a partir de seus metabólitos urinários nesta população.
Os autores analisaram 6 dialquilfosfatos, um metabólito específico (3,5,6-tricloro-2-piridinol, TCPy), o bisfenol e mais 14 metabólitos de ftalatos na urina de 100 gestantes participantes do projeto Generation R.
De modo geral, após comparação com outros grupos verificou-se que os resultados de metabólitos do BPA era similar entre os grupos, mas a exposição aos metabólitos dos pesticidas e dos ftalatos eram relativamente mais altos no grupo das gestantes.
Os autores, a partir dos resultados sugerem que existe um ampla distribuição da exposição aos contaminantes selecionados e que as razões para isto e os possíveis efeitos sobre a saúde necessitam maior atenção e investigação.

Este estudo é interessante pois compara uma população de risco (gestantes) com grupos variados e se observa a presença em níveis superiores aos desejáveis de contaminantes potencialmente danosos para a sinalização androgênica nos fetos masculinos, para o correto funcionamento tireoideo e desenvolvimento cognitivo(como já visto em outros artigos neste blog). Curioso o achado de concentrações mais elevadas que na população geral.

Para saber mais:
Ye X, Pierik FH, Hauser R, Duty S, Angerer J, Park MM, Burdorf A, Hofman A, Jaddoe VW, Mackenbach JP, Steegers EA, Tiemeier H, Longnecker MP.
Urinary metabolite concentrations of organophosphorous pesticides, bisphenol A, and phthalates among pregnant women in Rotterdam, the Netherlands: The Generation R study.
Environ Res. 2008 Sep 4.(disponível na versão on-line da publicação).

http://www.generationr.nl/index.php?option=com_frontpage

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Tal mãe, tal filho.

Hoje trago um artigo da Environmental Research sobre pesquisa realizada pelo grupo do Dra. Sathyanarayana do Dep. de Pediatria da Universidade de Washington em Seattle.
A Doutora e seus colaboradores estudaram as correlações entre a presença de ftalatos na mãe e a presença destas mesmas substâncias em seus filhos. Foram estudados nove metabólitos de ftalatos na urina de 210 pares de mães e seus bebês. Foram também feitos os devidos ajustes para idade das crianças, grupo etnico e taxa de clearance de creatinina e história demográfica dos pares. O objetivo era verificar se existia correlação entre as concentrações maternas de ftalatos e aquelas apresentadas pelos bebês.
Os autores encontraram relação estatísticamente significativa para seis metabólitos: monobenzil ftalato, monoetil ftalato, monoisobutil ftalato, mono (2 etilhexil) ftalato, mono(2-etil-5-hidroxi-hexil) ftalato, e mono(2-etil-5-oxo-hexil)ftalato (p<0.05), sendo estes três últimos derivados do dietilhexil ftalato.
Os autores sugerem que, dados os resultados, é bastante plausível que a exposição ambiental materna e infantil condividida por mãe e filhos possa contribuir para estes achados, mas que rotas diferentes de exposição infantil não identificadas precisam ser melhor estudadas no intuito de diminuir a exposição das crianças a estas substâncias.

Para saber mais:
Sathyanarayana S, Calafat AM, Liu F, Swan SH.
Maternal and infant urinary phthalate metabolite concentrations: Are they related?
Environ Res. 2008 Aug 18.

http://depts.washington.edu/mrhr/sathyana.html

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Licença Maternidade

Parece que se vota hoje a licença maternidade de 6 meses, que ela não será obrigatória, nem para patrões, nem para empregadas, permanecendo a opção dos atuais 4 meses.
Então surge uma pergunta natural: que raça de votação é esta?
Que a licença maternidade de 6 meses é um direito das crianças (escrevi CRIANÇAS, não mamães) é ponto pacífico. A OMS prescreve o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade no mínimo. E aleitar não é somente dar o peito. Aleitar é dar carinho, é dar conforto. É necessário um ambiente tranquilo.
Digamos claramente que interromper o trabalho para aleitar não é exatamente nem o ideal para os patrões, nem para as empregadas. Muito menos ainda o é para os lactentes. E são eles a parte mais débil e que merece uma proteção verdadeira e comprometida.
Na Itália, onde vivi por muitos anos e onde nasceu minha filha, garante licença maternidade de no mínimo 6 meses, com possibilidade de extensão optativa. Garante até tempo dos pais (homens) para acompanhamento dos filhos até 8 anos de idade. Na Escandinávia as leis são ainda mais garantistas.
Vamos ter a coragem de criar um futuro palpável e melhor para nossas crianças, aprovando a disposição, mas em seu amplo contexto. Dando uma vantagem real para cada novo cidadão que vem a este mundo sem balelas.
Isto não "quebra" o Estado. Os que "quebram" o Estado são bem mais crescidinhos e esqueceram que um dia foram amamentados.