quinta-feira, 11 de março de 2010

Irresponsabilidade médica e o risco desnecessário

Ontem, ao fim da novela "Viver a Vida", um comentário de uma mulher chamada Patrícia me chamou a atenção. Ela dizia que fez uma cirurgia bariátrica (de redução de estômago) e teve uma séria complicação que a deixou em coma e resultou muitas cicatrizes e discorre sobre a superação do problema da auto-imagem débil.
Na verdade a parte mais significativa para mim do seu depoimento foi que ela havia procurado dois bons profissionais que haviam se recusado a fazer o procedimento, por ela não ter indicação para isto. Ela não era obesa mórbida.
Estava acima do peso e por uma disfunção tireoidea não conseguia atingir o peso-forma que havia pré-estabelecido para si própria. Como a paciente havia uma exigência de uma imagem compatível com seu passado de modelo (sic), ela insistiu.
Então procurou um terceiro médico, que aceitou fazer o procedimento que resultou em todas as complicações já ditas. Mesmo sem indicação.
Aqui ficou bem claro que houve um deslize. A coisa era grande, resultou em uma complicação evidente.
Mas o mesmo acontece quando as pessoas vão ao consultório e exigem com prepotência antibióticos para tratar seu resfriado. Ou se decepcionam quando o médico diz que elas não têm necessidade de nenhum medicamento, mas dieta e exercício, bom sono, abandonar um hábito nocivo, ou seja: simplesmente disciplina e higiene.
Na faculdade de Medicina se aprende que todo o procedimento médico implica em riscos. Alguns maiores, outros menores. Todo o procedimento médico possui uma indicação e contra-indicações.
Em qualquer circunstância, o benefício obtido pelo ato médico deve suplantar abundantemente o risco, ou ele é inútil, fútil, irresponsável, torna-se iatrogênico. Não cura doença, a cria.
Isto se aplica a toda a prática médica. Desde uma delicada cirurgia até um aparentemente inocente comprimido de aspirina.
Ali, no depoimento, o risco foi superior ao benefício, e aconteceu. De risco se tornou fato.
Já tive na UTI histórias similares em nome de um excesso de "beleza", mas não só. Histórias de irresponsabilidade de ambas as partes e que acabam perpetuadas a cada vez que um profissional diz sim quando deveria dizer não.

Você que é paciente, reflita. Você que é médico também.


Para assistir o depoimento:http://especial.viveravida.globo.com/portal-da-superacao/2010/03/10/patricia-hall-versao-estendida/

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