terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Uma base molecular para as diferenças entre os sexos na inflamação e na asma.

Um grupo multicêntrico europeu de pesquisadores liderados pelo Dr. Carlo Pergola trouxe à luz um artigo interessante elucidando uma via molecular que determina diferentes respostas entre os sexos nas respostas inflamatórias e nas síndromes alérgicas.
A 5-lipoxigenase inicia a biossíntese dos leucotrienos (LT), mediadores lipídicos pro-inflamatórios envolvidos na defesa imunitária, mas também nas respostas inflamatórias inadequadas e nas alergias.
Apesar de uma diferença de incidência destas manifestações entre os sexos, este fator tinha sido desconsiderado nos estudos com leucotrienos e 5-lipoxigenase, segundo os autores.
Sabe-se, no entanto, que os hormônios sexuais possuem influência sobre o sistema imunitário. Doenças como artrite reumatóide, Lupus eritematoso sistêmico, são mais frequentes no sexo feminino e que têm sido associadas a níveis de hormônios, ao antígeno de histocompatibilidade (major) e a produção de citocinas. Da mesma forma, outras doenças como carcinoma hepatocelular (inflamação crônica hepática) são menos frequentes em mulheres, pela inibição estrogênica da secreção de IL6 pelas células de Kupffer.
A asma é predominante na infância no sexo masculino, mas na idade adulta a incidência é maior em mulheres, indicando um efeito protetor dos andrógenos no sexo masculino.
Os autores do estudo demonstram no experimento, que a formação do leucotrieno em sangue total estimulado ou nos neutrófilos no sexo masculino, ocorre de forma muito diminuida quando comparado com o sexo feminino, acompanhado por mudanças na 5-lipoxigenase.
Isto ocorreria, segundo os autores, pela ativação extracelular das kinases sinal-reguladas (ERKs). Estas diferenças são diretamente relacionadas a variação masculino/feminina dos níveis de testosterona e da 5 alfa-dihidrotestosterona.
A adição de 5 alfa dihidrotestosterona ao sangue feminino, ou aos neutrófilos, reduziu no estudo, a biosíntese (elevada) de leucotrieno até os níveis masculinos.
Segundo os autores, esta é uma via molecular que justificaria as diferentes respostas inflamatórias entre os sexos.

O estudo acima nos ilustra um exemplo da intrincada relação entre hormônios e o sistema imunitário e do quão danoso possa ser uma interferência nestas relações.

Para saber mais: (o artigo gratuito está disponível no link):http://www.pnas.org/content/early/2008/12/08/0809120105.full.pdf+html

Pergola C, Dodt G, Rossi A, Neunhoeffer E, Lawrenz B, Norhoff H, Samuelson B, Rådmarkf O, Sautebin L, Werz O
ERK-mediated regulation of leukotriene biosynthesis
by androgens: A molecular basis for gender
differences in inflammation and asthma

PNAS, early edition, 8 Dec 2008.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Shanna Swan e os efeitos dos Ftalatos em humanos: menos plástico, mais festa!

Artigo recém publicado na Environmental Research pela Dr.a Shanna Swan, do Dept. de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade de Rochester, traz uma revisão sobre os efeitos dos Ftalatos em seres humanos.
No artigo ela traz os avanços e os resultados recentes do estudo chamado "Study for Future Families", um estudo multicêntrico sobre a gestação e que foi onde se observaram pela primeira vez os efeitos dos ftalatos em seres humanos.
Para quem não segue este blog, ftalatos são uma família de aditivos plásticos, que são ubíquos (estão em todos os lugares), aos quais estamos expostos por diferentes vias: inalatória, por ingestão e transcutânea através de alimentos contaminados (pelo plástico), cosméticos, perfumadores de ambiente, plásticos em geral.
Do ponto de vista químico, eles são diésteres do ácido 1,2 benzenodicarboxílico, ou ácido ftálico.
Neste estudo, pelo menos uma associação significativa foi descrita para os metabólitos do di-n-butil ftalato (DBP), do butilbenzil ftalato (BzBP), dietil ftalato (DEP) e diisononil Ftalato (DINP), e para três dos metabólitos urinários do di(2-etilhexil) ftalato (DEHP).
Muitos dos achados* em humanos, a maioria em meninos, são consistentes com o efeito anti-androgênico que foi demonstrada para vários ftalatos.

Os achados na literatura relacionados aos ftalatos e crianças nas diversas fases de desenvolvimento são os seguintes: diminuição da idade gestacional, encurtamento da distância anogenital, diminuição do tamnho do pênis, descida incompleta dos testículos, aumento do SHBG (proteína ligante dos andrógenos no plasma), aumento do LH/T livre, diminuição da Testosterona livre, telarca prematura, rinite, eczema e asma (as três últimas relacionadas ao pó doméstico).
Em adultos os achados são os seguintes: aumento do dano no DNA do esperma, diminuição da motilidade dos espermatozóides, diminuição na concentração do esperma, piora na morfologia do esperma, aumento no LH/T livre, diminuição do FSH, diminuição da função pukmonar, aumento da circunferência abdominal, aumento da resistência insulínica, hipotiroidismo (diminuição do T3 e do T4).

Na conclusão, a Dra Swan ressalta as dificuldades metodológicas no desenho de um estudo envolvendo ftalatos, dada a muitiplicidade de fontes e rotas de exposição e da não linearidade das dose-resposta. Assim, estudos que analisam singularmente um só ftalato não expressam as reais situações de exposição a esta família de substâncias nem o risco real delas derivado.

Para saber mais:
Swan SH
Environmental phthalate exposure in relation to reproductive outcomes
and other health endpoints in humans
Environmental Research 108 (2008) 177–184

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Histórias de gente que vale.

E no meio de tanta tragédia lá em S. Catarina...

Um senhor de 84 anos, em Blumenau, estava muito angustiado. Procurou os bombeiros e solicitou a possibilidade de retornar a sua casa, pois havia necessidade de um objeto que estava lá. A casa, semi-destruída, ficava em zona de alto risco e os bombeiros negaram o pedido. O senhor ficou desesperado e explicou que precisava pegar um carnet de prestações. Os bombeiros ouviram dele o seguinte: " ...Eu perdi tudo, tudo o que acumulei em minha vida: a casa, membros da família, tudo. NÃO QUERO PERDER MEU NOME."
Os bombeiros decidiram ir buscar o carnet.
E o senhor pagou a parcela de uma moto soterrada.

Uma família recebe uma doação proveniente de outra família endereçada diretamente a ela. Dentro do bolso de um dos casacos encontra uma quantia em dinheiro bastante significativa. Mesmo em uma situação de penúria e imensa necessidade, devolve o dinheiro para a família que havia doado as roupas, pois tendo visto os valores, acreditou ser pouco provável que não fosse um engano.

Para quem pensa que a ética é um luxo, não é não.
As coisas deviam ser assim sempre.

PS: Fran, tá lá seu selo. Obrigada.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Receita de massinha de modelar caseira

Para todas as mamães que vão encarar as férias da molecada, este post é para vocês.
É uma brincadeira que todas as crianças pequenas amam.
Lá vai:

4 xícaras de farinha de trigo
1 xícara de sal
1 e 1/2 xícara de água
1 colher de sopa de óleo
corante alimentício ou gelatina em pó (fica com cor e com cheiro)

Modo de fazer:
Em uma vasilha, misture a farinha, o sal, a água e o óleo. Amasse bem com as mãos até que vire uma massa uniforme. Divida em várias partes e em cada uma coloque o corante ou a gelatina colorida.
Pronto! Está pronta a massinha.
Esta brincadeira ajuda a coordenação motora, a percepção de volumes e proporções, o raciocínio espacial. Lembrem-se disso na hora que forem limpar a sujeira e ponham um sorrisão na cara. :)

Esta receita veio do Liceu Salesiano N. Sra. Auxiliadora de Campinas. Testei e valeu.
Passo para vocês.

Desculpas e obrigada.

Peço desculpas a quem me escreveu comentários nos últimos dois dias, pois só agora estou respondendo. Lamento. Tive alguns problemas pessoais.
Aproveito para agradecer a todos os que se incomodaram de me contatar e do apoio que recebi(emos) dos amigos de verdade.
Muito obrigada.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Anemia ferropriva e bisfenol A

Um artigo publicado na Toxicology de um grupo de pesquisadores da Hamdard University de Nova Delhi, India, afirma que a deficiência de ferro aumenta o estresse oxidativo em ratos.
O Bisfenol A (BPA), contaminante estrogênico ambiental, é também conhecido por seu efeito indutor do estresse oxidativo com liberação de radicais livres de oxigênio.
Os autores, Dr.s Rachid, Ahmad, Rahman e colaboradores, estudaram os efeitos da deficiência de ferro em ratos cronicamente expostos a baixos níveis de BPA, levando em consideração os radicais livres e o potencial anti-oxidante hepático, renal e das gônadas.
Os autores observaram um aumento significativo da peroxidação dos lipídeos nos ratos expostos ao BPA que concomitantemente apresentavam deficiência de ferro. Da mesma forma os níveis da glutadiona também se apresentaram reduzidos significativamente neste grupo. Além disso a deficiência de ferro também se demonstrou significativa na modulação enzimática em todos os tecidos. As fêmeas mostraram uma maior vulnerabilidade que os machos aos efeitos do BPA nos parâmetros estudados.
Os resultados deste estudo levaram os autores a concluir que a má nutrição pode exercer influência sobre os efeitos interferentes químicos dos contaminantes e sugerem que novos estudos ligando estados nutricionais e interferentes endócrinos (incluso o BPA) são necessários para melhor esclarecer esta ligação.

Resumo prático: comer mal piora a situação. Uma dieta rica e variada pode fazer diferença.

Fontes de ferro: carnes vermelhas, fígado, coração, gema de ovos, vegetais verdes escuros (couve, agrião, cheiro verde, taioba,...), leguminosas (feijão, lentilha, fava, grão de bico,...), grãos integrais, nozes, castanhas, melaço e rapadura, açaí,... O Ferro de origem animal é mais facilmente absorvido que o de origem vegetal.
Evite reposição através de pílulas sem orientação médica, é sempre melhor ajustar a dieta. Associar uma fonte de vitamina C ajuda a absorção do Ferro, assim, um suco de fruta fresca como manga, goiaba, laranja, limão, acerola, pode ser muito bem-vindo.
Porém lembrem-se que o excesso de Ferro também pode ser danoso.

Para saber mais:
Rashid H, Ahmad F, Rahman S, Ansari RA, Bhatia K, Kaur M, Islam F, Raisuddin S.
Iron deficiency augments bisphenol A-induced oxidative stress in rats.
Toxicology. 2008 Nov 11. (e-pub)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Ace-fatos do dia: pesticidas

Li no blog "Nosso Planeta", da Dr.a Nurit Bensusan, no "O Globo" de hoje, um post que acho muito válido e recomendo para os assíduos leitores. Se chama "A sorte grande" (http://oglobo.globo.com/blogs/nossoplaneta/default.asp). Vocês provavelmente terão que fazer uma inscrição ao site, mas vale a pena.
No texto ela cita alguns agrotóxicos. Cita também a dificuldade da ANVISA em banir estas substâncias. Não vou fazer corta e cola, vou só trazer alguns dados para vocês pensarem ao lerem o texto dela.

Então vejam a resolução da ANVISA de fevereiro de 2008. Leiam as motivações com calma.
A listinha inclui:
acefato ( estudos com animais e estudos epidemiológicos reportam que o produto causa neurotoxicidade, demonstram suspeita de carcinogenicidade para seres humanos e de toxicidade reprodutiva e a necessidade de revisar a Ingestão Diária Aceitável),
cihexatina (alta toxicidade aguda bem como apresenta suspeita de carcinogenicidade para seres humanos, toxicidade reprodutiva e neurotoxicidade),
glifosato (relatos de casos de intoxicação ocupacional e acidental, a solicitação de revisão da dose estabelecida para a Ingesta Diária Aceitável (IDA) por parte de empresa registrante, a necessidade de controle de limite máximo de impurezas presentes no produto técnico e possíveis efeitos toxicológicos adversos),
abamectina ( resultados preocupantes relativos à toxicidade aguda e suspeita de toxicidade reprodutiva dessa substância e de seus metabólitos),
lactofen (Carcinogênico para humanos),
triclorfom (neurotoxicidade, potencial carcinogênico e toxicidade reprodutiva),
parathion metílico * (alta toxicidade aguda, neurotoxicidade, suspeita de desregulação endócrina, mutagenicidade e carcinogenicidade)
metamidofós * (alta toxicidade aguda e neurotoxicidade)
( *ambos inclusos na lista de substâncias perigosas da Convenção de Roterdã, que trata do controle internacional de seu trânsito, somente podendo ser exportado de um país a outro mediante o consentimento prévio informado do país importador, da qual o Brasil é signatário desde 1997, tendo-a ratificado em 2003),
fosmet (neurotoxicidade),
carbofurano (alta toxicidade aguda),
forato (alta toxicidade aguda e neurotoxicidade),
endossulfam (alta toxicidade aguda, suspeita de desregulação endócrina e toxicidade reprodutiva),
paraquat (alta toxicidade aguda e toxicidade crônica),
tiram (mutagenicidade, toxicidade reprodutiva e suspeita de desregulação endócrina).

Acharam interessante? Então leiam o texto completo, com o nome dos bois:

http://www.anvisa.gov.br/legis/resol/2008/rdc/10_270208rdc.htm

Pensem que eles estão nas nossas mesas, nas nossas saladas, carnes, leite, vegetais, roupas, tudo.
E você vai ter uma enorme vontade de comer orgânicos...